Casa nova

O Sobre Pensar cresceu, tomou corpo e resolveu mudar de casa.

Uma maior, mais confortável e elegante.

Agora nossos pensamentos repousam inquietos no SobrePensar.com .

Passe lá para tomar um café!

Abração!

Adolescente

Entrei no ônibus bem cansado e ao passar a catraca já procurava um lugar para sentar. Achei um! Um sorriso quase apareceu, não fosse minha habitual cara fechada de andar de ônibus. Pedi licença e me sentei. O pedido foi mais por hábito do que por educação, afinal, o ônibus nunca ninguém responde a esses pedidos. É como falar sozinho, no máximo dá pra ganhar um aceno de cabeça. Nesse caso específico não ganhei nada. Bom, mesmo que a pessoa ao lado tivesse acenado a cabeça eu não teria visto. Fiquei lá, sentado, balançando com o movimento do ônibus. Os olhos começaram a ficar pesados, a cabeça começou a esvaziar, os sons pareciam mais distantes, mas quando estava prestes a adormecer, ouvi uma música familiar. Estava bem baixinho, então eu abri os olhos e passei a procurar com os ouvidos atentos de onde vinha o som e o que realmente era, pois ainda não tinha conseguido. Percebi que estava pertinho de mim e olhei discretamente para o lado. Era a menina do meu lado que estava ouvindo música e o som vazava pelo fone de ouvido. A música era boa e eu realmente conhecia. Não me lembro o nome agora, mas era boa. Fiquei feliz por ouvir uma música boa e o sono se foi. O caminho era longo e passei a prestar mais atenção no que tocava no aparelhinho daquela menina. Pouco tempo depois, passei a prestar atenção também à menina. Era uma menina bonita, minha idade, mais ou menos, um pouco mais baixa que eu, bem, não dava para ter certeza, já que estávamos sentados. Tinha cabelos cacheados e de cor castanha, que chegava perto do loiro quando o sol batia pela janela. Eu olhava muito disfarçadamente, para que ela não notasse que eu estava olhando. Passei a olhar para suas mãos, aí não teria como ela perceber. Tinha mãos muito bonitas! Dedos longos, finos, unhas delicadamente pintadas de uma cor forte e chamativa. “Nenhuma aliança”, pensei. Mas que pensamento idiota! Não contive o sorriso me achando um idiota por pensar nisso. Pensar se a menina sentada no ônibus ao meu lado tem namorado ou não é ridículo, mesmo por que, que chances eu teria com uma menina dessa? Achava-me mais idiota ainda por ficar articulando sobre as possibilidades de alguma coisa com essa menina que eu mal vira e muito menos sabia quem era. Mas era difícil evitar. Comecei a olhar para as coisas que ela carregava. Mochila bonita, tinha umas pulseiras diferentes, a roupa era legal. Uma roupa sem grife eu acho, mas também não entendo muito disso. As músicas iam passando e eu ficava tentando ouvir e identificar qual era, imaginar a próxima. Estava até aproveitando essa ideia desse “flerte”. Claro, tudo muito disfarçado, e só de pensar que isso era um flerte eu já ficava vermelho de vergonha. Mas aí, sem perceber, comecei a cantarolar a música que estava tocando naquele momento. Ela deve ter percebido, pois deu uma olhadinha pra mim e abriu um sorrisinho do tipo: “alô? só você está cantando no meio do ônibus com um monte de gente em volta e até eu estou com vergonha por você!” Quando percebi que ela percebeu fiquei muito sem graça e virei o rosto. Mas agora que ela sabia que eu estava ouvindo não poderia ficar sem falar nada, seria muito vergonhoso. Tomei coragem, respirei fundo e falei: “Legal aquela música”. Ela me ouviu, deu outro sorrisinho e disse: “É, é sim”. Droga. Seria melhor eu ter ficado quieto. Mas não desisti, não poderia sair do meu flerte imaginário na pior, já que era só imaginário tinha que pelo menos ter algum proveito para minha auto-estima. Insisti: “Você tem um bom gosto musical, conhecia quase tudo que estava tocando aí”. Ela sorriu novamente e do nada disse: “Vou cobrar aluguel, hein! Ouvindo meu mp3 sem minha permissão”. Juro que quase levantei do banco e desci naquele ponto mesmo, sem nem saber onde era. Fiquei morrendo de vergonha dela. Ela nem me conhecia e soltava uma piada daquela. Fiquei quebrado. Acabou meu flerte imaginário. Acabou minha única diversão naquele ônibus chato e sem graça, no meio daquele inferno de trânsito e suor de um monte de gente que eu não conhecia, aquele monte de…

- Quer dividir?

- Oi?

- Você disse que estava gostando das músicas, quer ouvir junto? Podemos dividir o fone. Afinal, o trânsito está horrível hoje e parece que vai demorar.

- Tá.

- Pode pegar.

- Brigado.

- De nada.

O sol brilhava de um jeito muito bonito no cabelo dela. Percebi que seus olhos eram bonitos e bem escuros. Que garota surpreendente! Percebi que usava um brinco pequeno…

O ônibus continuou andando, cada um desceu em sua parada, o garoto apaixonado pela menina que não sabia sequer o nome ou onde morava (pois desceu antes que ela) e a menina sem nunca desconfiar de nada, nem mesmo pensar nisso, mas achando ele uma graça…

Ah, o amor…

Renato Malkov

Todas as cartas de amor…

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


Fernando Pessoa, 21/10/1935

Claudia Gallego mostra que o amor chega até os pés.

Claudia Gallego mostra que o amor chega até os pés.

O amor mais forte

“Sim, é a verdade absoluta! - decidia ele, aprofundando-se cada vez mais em seus pensamentos e procedendo a uma análise. - Este Quasímodo de T… era suficientemente estúpido e grato para se encher de amores pelo amante da própria mulher, em quem não notara nada durante vinte anos! Respeitou-me nove anos seguidos, lembrava-se de mim com veneração e conservou na memória minhas ‘lucubrações’. E eu não sabia de nada, meu Deus! Ele não podia estar mentindo ontem! Mas amava-me acaso ontem, quando expressou o seu amor e disse: ‘Ajustemos as contas?’. Sim, amava-me por ódio; e este amor é o mais forte…”

Parágrafo do capítulo 16 de O Eterno Marido de Fiódor Dostoiévski, Análise, no qual Vieltchâninov pensa em tudo que viveu durante alguns dias ao lado de Páviel Pávlovitch.

Será este o amor mais forte?

Renato Malkov

Àquela a quem nunca pude chamar de amor

Os meus melhores sentimentos

Os meus melhores momentos

Sonhos

Deixo-os a tua porta

Mas antes que abra e os veja

Os recolho

Para poder saborear de novo

Cada um deles

Ainda mais que sei

Que a partir do segundo que tocar neles

Derreterão

Não te quero

Quero o que penso que você é

Quero o que quero que você seja

E que você nunca será

Porque nunca foi

Só em mim


Me quero

Renato Malkov

Juíz de despautério

E o amor que sacrilégio
nasceu juiz de despautério.

Arruma-se um motivo,
e o envolvem sem perguntar.

Ah o amor tem de estar lá!

E a ele só resta amar,
o amor é um juiz
que não pode julgar.

Ah o amor tem de estar lá!

E tem casal novo,
e tem casal que briga,
e tem casal desfeito que volta a ser casal,
de novo!

Ah o amor tem que estar lá!

Há situações onde a razão desaparece,
a paciência desaparece,
a compaixão, o carinho,
a ternura, a compreensão…
Bem, quase tudo desaparece.
- Só o amor resolve!
Diz logo o apaziguador,
que logo depois,
desaparece.

Ah o amor tem de estar lá!

Poetas não lhe deixam em paz,
basta uma canção,
qualquer inspiração, e
arruma-se uma palavra terminada em ‘or’
só para rimar com amor.

Ah o amor tem de estar lá!

Pobre amor, de tão atarefado
não consegue usar de seu produto
ama, mas não consegue ser amado.

Evandro L! Melo

Corridinho

    O amor quer abraçar e não pode.
    A multidão em volta,
    com seus olhos cediços,
    põe caco de vidro no muro
    para o amor desistir.
    O amor usa o correio,
    o correio trapaceia,
    a carta não chega,
    o amor fica sem saber se é ou não é.
    O amor pega o cavalo,
    desembarca do trem,
    chega na porta cansado
    de tanto caminhar a pé.
    Fala a palavra açucena,
    pede água, bebe café,
    dorme na sua presença,
    chupa bala de hortelã.
    Tudo manha, truque, engenho:
    é descuidar, o amor te pega,
    te come, te molha todo.
    Mas água o amor não é.

Adélia Prado.

Oração: Ágape

Alma
Me diga o que esta acontecendo
Medo do Céu e do inferno
Um mundo azul cheio de dor
Parece isso o que esta á sentir
Mas a chuva caiu
E trouxe algo que te nutriu
É um amor que vem lá do Céu

Ágape e único
Suave e fugaz
Sincero e verdadeiro
Um amor completo e inteiro
Que retira as distâncias
E te traz esperança
Mesmo destruído
É um amor do nosso maior amigo

Por favor sinta
Sinta o amor completo de Deus
Algo que te resgata das profundezas
E que te dá todas as certezas
Ele nunca te descarta fora
Ele simplesmente acolhe e te consola
Saiba que este amor é seu

O amor completo de Deus!

Oração de Leo Gomes